Desabafo nº 4

2016 pode ser descrito como o pior ano da minha vida. Saí apenas para minhas sessões de terapia semanais. Fora isso, não tive vontade nenhuma nem de viver. Eu não poderia trabalhar por causa dos remédios controlados e também pelas inconstâncias em meu estado de humor.

Minha mãe e meu padrasto lidaram com tudo sozinhos, se desdobrando entre pagar as contas e arcar com as despesas do meu tratamento.

Mas o homem que causou todo o meu sofrimento, que quebrou minha confiança, dignidade e vontade de viver, não queria assumir. No começo, ele cumpria com o que foi combinado, e depois, me apunhalou pelas costas. Cortou minha ajuda pela metade justificando que  estava sustentando minha mãe e meu padrasto. Mas quando essa narrativa mentirosa caiu por terra, ele disse não tinha mais dinheiro.

Ele não liga para saber do meu estado. Não pergunta se minha mãe e meu padrasto precisam de ajuda. Sempre se esquiva de tudo o que diz respeito a mim. 


Disse que queria ser feliz, que finalmente tinha a vida que queria, longe dos problemas.

Enquanto estou na casa da minha mãe, triste, magoada e desprezada por um homem que eu amava com todo o meu coração, ele está vivendo sua vida como se fosse a última vez… Sem mim, o grande problema do qual ele se livrou.
 







É triste saber que ele está feliz às custas do meu sofrimento. Me doi vê-lo dando o amor, o carinho e a atenção que deveriam ser meus, para filhos que sequer são dele. É revoltante ver que, enquanto ele "curte" a vida, meu irmão está, às vezes, dependendo da ajuda de amigos e parentes para ter comida, ficando no escuro porque meu pai deixou contas atrasadas.

O homem que um dia foi nosso herói, foi embora e nos deixou uma casa caindo aos pedaços. Uma casa que ele diz que sempre quis arrumar, mas que nunca fez isso por nós, para colocar outra mulher e sua "nova e feliz família".

Esse homem, que era nosso pai, nosso exemplo, quer apagar seus filhos biológicos e "problemáticos", como se nunca tivéssemos existido.

Desabafo nº 3

Minha mãe foi vítima de violência doméstica. Ela passou 20 anos sendo espancada, humilhada, e tendo sua vida ameaçada. Ela não contou isso para ninguém.

Minha mãe desistiu de fazer faculdade para que meu pai crescesse na profissão. O incentivou a voltar a estudar e abriu mão de sua liberdade para que ele pudesse ter tranquilidade.

Minha mãe saiu como a grande vilã do casamento dos dois, quando o monstro era ele. Ela deixou todo mundo pensar que ele era o pobre coitado. Ela sempre me disse para respeitar o meu pai independente do que ele fizesse. Ela me deu um pai herói, destemido, dedicado, que fazia de tudo pelos filhos, e de fato ele fazia. Mas o marido que ela tinha não era nem de longe o pai que eu tive. E tinha horas que esse pai sumia pra dar lugar ao monstro. Como eu era pequena, tudo o que mais queria, era meu pai de volta. E ele quase sempre voltava.

Minha mãe se colocava na minha frente quando ele queria me bater. Ela ficava preocupada com humor com o qual ele chegaria em casa. Não me deixava sozinha com ele, e sempre me protegia de suas crises.

Meu pai apontou uma arma para mim. Meu pai ergueu minha mãe pelo pescoço e eu vi tudo. Meu pai ameaçou minha mãe de morte na minha frente. Meu pai gritava, quebrava as coisas, desde pratos e copos, passando por vidros de portas e janelas, até chegar a móveis e eletrodomésticos. Meu pai disse que nós não tínhamos ideia da coisa ruim que havia dentro dele.

Ele estava certo. Agora nós sabemos.

Desabafo nº 2

Eu me lembro muito bem da primeira crise de depressão que tive. Foi em meados de 2013, durante a faculdade. Eu estava me sentindo um lixo por não conseguir manter o nível de excelência em meus estudos na reta final do curso.

Em minha vida pessoal, minha relação com meu pai estava se desintegrando. Ele estava em depressão, e me deixava constantemente preocupada com seus possíveis colapsos. Eu tentava ajudar, mas ele me repelia, e buscava consolo em "amigas virtuais". Além disso, eu estava morando com pessoas que não tinham nada a ver comigo, que me faziam sentir uma estranha dentro da minha própria casa. Nossa convivência foi piorando cada vez mais até não sobrar sequer o mínimo de respeito.

Comecei a faltar aulas, a inventar qualquer desculpa que justificasse aquilo. Comecei a dormir tarde, comer mal, a largar disciplinas pela metade quando não conseguia trancar. Cheguei a ficar um semestre inteiro enfurnada em casa (e nisso, eu já tinha me mudado para um lugar só meu), só saindo para comprar comida. Me afastei de todos. Me isolei em meu próprio mundo. Só Deus sabe o que foi de mim naquele tempo.

Voltei no semestre seguinte, disposta a lutar para ter meu diploma. Foi muito difícil, e continuei a repetir certos hábitos de meu primeiro colapso, mas me forcei a seguir em frente. E consegui. Com muitas lágrimas, suor, dor, noites sem dormir e estômago à base de macarrão instantâneo, com raras exceções, mas consegui.

Mas ela não foi embora como eu esperava. Eu nem a via como depressão e sim como estafa. Ela já tinha se estabelecido no ano de 2013 e continuava ali, se fortalecendo, sugando minha energia em cada oportunidade.

No ano de 2015 ela atingiu seu ponto máximo. E em 2016, fui ladeira abaixo. Nesse ponto, minha relação com meu pai foi resumida a mentiras, cobranças de pensão e troca de farpas.

Você tem noção do que é ouvir do seu próprio pai que você é inútil e interesseira, mesmo quando ele descobre que você escondeu dele que passou fome pra não ter que lhe pedir mais dinheiro, por vergonha e medo de esvaziar o bolso dele?

Eu ouvi isso e muito mais.

Fome? Você passou porque quis.

Quer tratar com psicóloga? Vá para a fila do SUS. Você não é melhor do que ninguém.

Para de drama. Para de bancar a coitada. Decepção não causa depressão.

Para de montar nas minhas costas, você já é adulta e formada. Vai trabalhar! Não vou ficar bancando você. Se quiser seu dinheiro, vai na justiça.

(Segundo o laudo da psicóloga, que ele nem se deu o trabalho de ler, eu estava impedida de trabalhar tanto pelo meu estado emocional quanto pelo efeito dos antidepressivos).

Vai ficar estudando pro resto da vida? (Ele disse depois que eu disse que estava fazendo pós graduação à distância. E eu tive que parar por não ter condição alguma de arcar com as mensalidades).

Eu quis morrer todas as vezes em que essas coisas. E quase morri em cada uma delas quando tentei suicídio.

Desabafo nº 1

Em minha jornada na luta contra a depressão, tenho aprendido que comparar minha dor com a de outra pessoa não faz com que a dor que eu sinta seja menor.

É algo sobre o qual não podemos ter controle.

Pensar no sofrimento dos refugiados, dos sem-teto e dos famintos não ameniza o nosso sofrimento. E isso não é ingratidão. Muitos, erroneamente, vão pensar que sim. Vão pensar que é frescura, que é coisa de gente dramática.

Ninguém se preocupa em procurar as lacunas das quais essa doença silenciosamente traiçoeira se aproveitou para entrar. Ninguém quer saber o gatilho que despertou a tempestade que se formou dentro de mim. Ninguém quer conhecer a morada do inimigo que vive à espreita, envenenando dia após dia minha mente, transformando cada certeza em dúvida cruel, cada lembrança em tortura, cada sorriso em lágrima, e cada livramento em perda.

Um inimigo que ocupou o lugar da minha lucidez. Ela foi tirada de sua confortável poltrona, e colocada à prova diante de um fino fio de corda bamba, enquanto ele, sentado sem nenhuma compostura, a obrigava a dar passos cada vez mais perigosos rumo ao abismo.

Mas a verdade é que ninguém sabe o que é estar na sua pele. Ninguém sabe o que se passa na sua cabeça, nem o que você precisa enfrentar para acordar todos os dias, seja pra agradecer pela sua vida ou implorar pra que ela seja ceifada, pondo fim a todo aquele sofrimento.

Há dias que nos sentimos invencíveis, inquebráveis e destemidos. Há dias que um simples sopro nos derruba em cima da cama, e não há força no mundo, interna ou externa, capaz de nos fazer levantar. Por fora, a letargia se faz presente, mas por dentro, há uma batalha épica entre nossos desejos e necessidades, entre os pensamentos suicidas e as batidas do coração que pulsam em nossos ouvidos, nos lembrando que ainda estamos vivos.

A depressão não enfraquece apenas a sua mente. Ela enfraquece sua alma, seu espírito. Transforma suas finas vestes em panos de saco. Ela te curva de um jeito tão perigoso, que um único ponto de pressão, por mais leve que seja, parte você em pedaços impossíveis de serem recuperados ou encaixados.

Por isso, é preciso considerar as lutas diárias contra ela como vitórias: estamos fracos o bastante para nos cuvarmos, mas fortes o suficiente por ainda estarmos inteiros.